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domingo, 8 de setembro de 2019

1 YEAR LIVING IN A KUNG FU SCHOOL (1 ANO VIVENDO NUMA ESCOLA DE KUNG FU)

(Registro do dia em que pegamos as chaves)
(The day we got the keys)

Depois de um ano morando dentro de um Mo Gun (Casa-Kung Fu), que também é um Núcleo Certificado da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence no Rio de Janeiro. Quero compartilhar com vocês, leitores da página e pessoas que acompanham meu trabalho a tantos anos, como tem sido essa experiência tão impactante e desafiadora.
Acompanhe-me a partir de agora, pela Casa-Kung Fu da Família Moy Fat Lei. Ou simplesmente, o lugar que eu chamo de lar.

After a year living inside a Mo Gun (Kung Fu-House), which is also a Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence Certified School in Rio de Janeiro. I want to share with you, page readers and people who have been following my work for so many years, how has been such an impactful and challenging experience.
Accompany me from now on by the Moy Fat Lei Family Kung Fu-House. Or simply, the place I call home.
(Primeira visita de Si Fu)
(Si Fu´s first visit)

A primeira vez que dormi num Mo Gun, foi ainda no Núcleo dirigido por Si Fu na Avenida Nelson Cardoso, no bairro da Taquara, Zona Oeste do Rio. Naquela oportunidade, precisava fazer uns desenhos de proporções gigantescas para um projeto particular, e precisava de espaço para colocar os painéis em branco no chão e de privacidade também. E para minha surpresa, Si Fu concordou até mesmo parecendo animado com a perspectiva.
Mais tarde, já como Diretor do Núcleo Méier, dormia sempre de Quinta para Sexta em nosso antigo endereço, para produzir meus vídeos do programa de youtube "Cultura Kung Fu".
Era bem desconfortável, mas o Mo Gun era meu lugar de atuação profissional. E posso dizer isso hoje com convicção, de que o ato de "fechar a porta" ao encerrar o dia, tem um poder imenso dentro de um profissional.
Quando se fecha a porta do Mo Gun, sabemos que as atividades ali estão encerradas naquele dia. Podemos até sair para jantar, mas de lá, você vai para casa.

The first time I slept in a Mo Gun, it was still at Si Fu's School on Nelson Cardoso Avenue in the Taquara neighborhood of Rio's West Zone. At that time, I needed to make some gigantic drawings for a particular project, and I needed space to put blank panels on the floor and privacy too. And to my surprise, Si Fu agreed even looking excited at the prospect.
Later, as Director of the Méier School, I always slept from Thursday to Friday at our old address, to produce my videos for the youtube program "Kung Fu Culture".
It was pretty uncomfortable, but Mo Gun was my place of business. And I can say that today with conviction that closing the door at the end of the day has immense power within a professional.
When the door of Mo Gun is closed, we know that the activities there are closed that day. We may even go out to dinner, but from there you go home.
(Si Fu, e o "Jiu Paai" de minha Família Kung Fu)
(Si Fu and the "Jiu Paai" of my KF Family)

Outro fator importante para um "Si Fu", em minha concepção, é o ato de partir antes de que as atividades se encerrem, e deixar o restante do trabalho e dos cuidados com o Mo Gun, por conta do Daai Si Hing presente. Quantas... Tantas vezes ouvi Si Fu dizer, em meados dos anos 2000, algo como: "Pereira, eu vou indo lá, você cuida aí pra mim?" - O momento em que o discípulo diz: "Claro, Si Fu!" - É muito especial. De fato, ele não faz ideia se é capaz de fazer um bom trabalho, ou se a ausência do Si Fu será sentida por quem estiver para chegar, com a expectativa de encontrá-lo. Mas este gesto simbólico, tem um poder muito grande, de gerar novas lideranças em potencial e de boas histórias.
E morando no Mo Gun, bem... Não consigo fazer esse tipo de coisa, exatamente como vi Si Fu fazer. Por isso, tenho me esforçado para enxergar a como deixar "o vazio" para que os discípulos preencham. É um preço alto que se paga, mas é parte do trabalho de um Si Fu, eu acredito.

Another important factor for a Si Fu, in my view, is the act of leaving before the activities are over, and leaving the rest of the work and care of the Mo Gun to the Daai Si Hing present. How many ... So many times have I heard Si Fu say, in the mid-2000s, something like, "Pereira, I'm going home, could you take care of the Mo Gun for me?" - The moment when the disciple says: "Of course, Si Fu!" - It's very special. In fact, he has no idea if he can do a good job, or if the absence of Si Fu will be felt by anyone who is coming, expecting to find him. But this symbolic gesture has a great power to generate potential new leaders and good stories.
And living at Mo Gun, well ... I can't do that kind of thing, just like I saw Si Fu do. Therefore, I have been striving to see how to create "the empty" for the disciples to fill. It's a high price you pay, but it's part of a Si Fu's job, I believe.
Carrego em meu coração, muitas palavras ditas ao longo desses vinte anos. Costumo lembrar, de Si gung dizendo certa vez sobre um Si Fu não usar um "To Dai"(melhor entendido como "aluno"), para suprir suas carências. Meu próprio Si Fu, fala muito sobre isso. Em sua concepção, mesmo a relação "Si Hing-Dai" (entre praticantes mais antigos e mais novos), não deve se apoiar em primeiro lugar na amizade.
Escrevo isso, porque por muitas vezes, ser a referência de um Mo Gun (Fosse como "Daai Si hing" ou como "Si Fu). Me trazia à imagem do palhaço que se pinta antes de entrar em cena, e ao final da pintura, já está dentro da personagem. Nessas horas, me vinha à mente, a ópera "Pagliaci" cantada por Pavarotti e achava aquilo engraçado.
Finalmente, chegou um momento em que entendi que: Melhor do que fazer força para parecer bem quando não estava. Era me dedicar a ser forte em todos os momentos. E por coincidência, Si Fu falaria disso pouco tempo depois comigo. Ele dizia sobre a necessidade de nos tornarmos "homens alinhados" com uma linha central clara e definida.

I carry in my heart many words spoken over these twenty years. I often remember, Si gung once saying about a Si Fu not using a "To Dai" (better understood as a "student") to supply his needs. My own Si Fu talks a lot about it. In his view, even the "Si Hing-Dai" relationship (between older and younger practitioners) should not rely primarily on friendship.
I write this because it is often the reference of a Mo Gun (either as "Daai Si hing" or as "Si Fu.) It brought me to the image of the clown that is paint himself before entering the scene, and at the end of the painting. is already inside the character. At those times, it came to mind, the opera "Pagliaci" sung by Pavarotti and  I used to found it funny.
Finally, there came a time when I understood that: Better than trying hard to look good when I wasn't. It was devoting myself to being strong at all times. And coincidentally, Si Fu would talk about that a little while later with me. He said about the need to become  an "aligned men" with a clear and definite center line.
Falando em ópera, por muitas vezes me senti como um zelador de um teatro. Quando todos vão embora, o palco fica vazio, as poltronas também, e você anda dentre todos àqueles lugares tão cheios de vida momentos antes, e onde agora recai uma aura espectral e silenciosa.
Nesses momentos, a solidão bate com muita força. E você talvez pense, que essa é a essência de se morar sozinho seja onde for. Porém, te digo que num Mo Gun é diferente. A falta de um "transition moment", aquele momento entre fechar o Mo Gun e voltar pra casa, é muito grande. "Mo Gun" se traduz por "Recinto Marcial", então é como se você nunca desligasse o estado de alerta.
E no meio desse vazio, decidi que poderia preencher o lugar todo sozinho. E foi quando comecei a praticar sozinho novamente. Às vezes por uma hora...às vezes por duas horas seguidas...

Speaking of opera, I often felt like a theater janitor. When everyone is gone, the stage is empty, so are the armchairs, and you walk among all those places so full of life moments before, and now you have a spectral and silent aura.
In those moments, loneliness hits very hard. And you may think that this is the essence of living alone wherever you go. But I tell you that a Mo Gun is different. The lack of a "transition moment", that moment between closing the Mo Gun and returning home, is very big. "Mo Gun" translates to "Martial House", so it's like you never turn off the alert state.
And in the midst of this emptiness, I decided that I could fill the whole place by myself. And that's when I started practicing alone again. Sometimes for an hour ... sometimes for two hours straight ...
Comecei a perceber a oportunidade de viver intensamente esse momento. Não sei quando terei uma liberdade tão grande para estar comigo mesmo nos próximos anos, e pensando assim, passei a aproveitar esses momentos de solidão para me conhecer melhor. E percebi que poderia mais uma vez, renovar a ideia de "extensão para a conduta", que tanto tentamos trabalhar dentro de nossa Família. Ou seja, como você transpõe suas experiências marciais para o dia a dia?

I began to realize the opportunity to live this moment intensely. I do not know when I will have such a great freedom to be with myself in the next years, and thinking so, I began to enjoy these moments of loneliness to know myself better. And I realized that I could once again renew the idea of "extension to conduct" that we are trying so hard to work within our Family. That is, how do you transpose your martial experiences into everyday life?
(Final de tarde no Parque Madureira)
(Evenning at the Madureira Park - North Zone of Rio)

Desenvolvi nesse período, a assombrosa capacidade de me sentir completo mesmo nos momentos em que estou sozinho por longos períodos. Além de me conhecer melhor, refletir sobre uma série de atitudes e caminhos tomados ao longo dos anos. Esses momentos me permitem não só ler um bom livro, beber um bom café, mas principalmente, a apreciar minha própria companhia.
Morar em um Mo Gun pode ser benéfico ou não. Depende apenas do quanto você vai se apoiar no potencial da situação.

During this time I developed the amazing ability to feel complete even when I am alone. Besides knowing me better, reflect on a series of attitudes and paths taken over the years. These moments allow me not only to read a good book, drink a good coffee, but especially to enjoy my own company.
Living in a Mo Gun can be beneficial or not. It just depends on how much you will lean on the potential of the situation.


The Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvT@gmail.com